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Notcia - 29/06/2023 - Eu, empregada doméstica: a escrevivência das trabalhadoras domésticas
29/06/2023 - Eu, empregada doméstica: a escrevivência das trabalhadoras domésticas

Em 2016, Preta Rara, rapper, historiadora e apresentadora, resolveu postar no Facebook a sua experiência durante os sete anos em que trabalhou como empregada doméstica. À época, ela chegou a entregar mais de 80 currículos com foto em um mês.

Sem conseguir emprego, recorreu ao trabalho doméstico. Até que, na sua última experiência, como cozinheira, foi repreendida por se alimentar da própria comida que preparava — sendo que não recebia vale-alimentação — e não trazer os seus talheres.

Ela convidou, então, outras a também publicarem seus relatos no Facebook, vinculados à hashtag #EuEmpregadaDomestica. O volume de depoimentos recebidos em 24h motivou a criação da página de mesmo nome, bem como o livro Eu, Empregada Doméstica, lançado pela Editora Letramento.

Os primeiros relatos referem-se à mãe, à avó e à própria Preta Rara, as quais também foram trabalhadoras domésticas. Em particular, a sua mãe foi submetida ao trabalho infantil e em condições análogas à escravidão aos sete anos de idade. Podemos imaginar o quanto foi doloroso para Preta Rara ouvir esse relato, sobretudo porque há partes que eram desconhecidas pela sua família.

Os depoimentos não são de autoria exclusiva das trabalhadoras domésticas, embora elas sejam maioria. Abrangem também parentes, filhas e, por exemplo, um estudante de arquitetura que foi repreendido pelo professor por ter feito um quarto de empregada “muito grande” em uma planta. Além disso, o professor acrescentou que a porta teria que estar na direção do quintal, para que a trabalhadora não entrasse por dentro da casa.

Outra depoente observa o seguinte:

“O que me deixa mais inconformada é que essa discriminação está bem exposta no Código Sanitário Estadual de SP (Decreto 12342/78). No seu Art. 36 está que a área mínima de um dormitório é de 8m², porém se for “dormitório de empregada” (como está escrito) esse valor, que já é pequeno, cai para 6m². Então, como engenheira civil, me pergunto: se o Código estabelece, pelo ponto de vista SANITÁRIO, as condições MÍNIMAS para o bem estar de quem utilizará o ambiente, PORQUE as empregadas domésticas merecem menos?”

“A senzala moderna é o quartinho de empregada”, diz o subtítulo do livro. Essa arquitetura residencial reflete a lógica escravocrata da casa-grande e da senzala, alojamento precário das pessoas escravizadas. Os quartos de empregada, em geral, são minúsculos, mal ventilados e carentes de iluminação natural, próximos à cozinha e à lavanderia.

O pretexto é que a trabalhadora não tenha que levar muito tempo no deslocamento, porém, os quartos de empregada viabilizam que essa esteja sempre à disposição, privada do período de folga, da socialização e do lazer. Tal mentalidade colonial tem feito com que, perante o aumento da imigração de brasileiros à Portugal, as incorporadoras passassem a incluir nas plantas o quarto de empregada, em desuso desde os anos 70.

Conforme demonstrado no livro, a segregação racial é expressa no elevador de serviço, no quarto de empregada, nos utensílios separados, nos produtos de qualidade inferior que são oferecidos, e, até mesmo, sobras de comida e alimentos vencidos. Existem relatos positivos, sim, mas são poucos.
Outro fato notável é que o acesso à educação superior permitiu que as gerações posteriores rompessem com o ciclo do trabalho doméstico em suas famílias, o que causou a revolta daqueles que apregoavam um destino natural à servidão.

Como no poema “Não vou mais lavar os pratos”, de Cristiane Sobral:

“Depois de ler percebi
a estética dos pratos, a estética dos traços, a ética,
A estática.
Olho minhas mãos quando mudam a página
dos livros, mãos bem mais macias que antes
e sinto que posso começar a ser a todo instante.
Sinto.
[…]
Desalfabetizou.
Não vou mais lavar as coisas
e encobrir a verdadeira sujeira.
[…]
Li a assinatura da minha lei áurea
escrita em negro maiúsculo,
em letras tamanho 18, espaço duplo.”

Uma vez que “eu” de “eu, empregada doméstica” enuncia um sujeito coletivo, ancestral, não se pode falar em direitos das trabalhadoras domésticas sem mencionar Laudelina de Campos Mello (1904-1991), mineira, mulher negra, responsável pela fundação da primeira associação de empregadas domésticas (1936), a qual recebeu a alcunha de “terror das patroas”.

A sua associação fornecia às trabalhadoras domésticas curso de alfabetização, assistência jurídica, médica, odontológica, alimentos, roupas, creche, lazer, acesso à cultura, entre outros. Ela preocupava-se com o isolamento a que as trabalhadoras domésticas eram submetidas, por isso, promovia eventos de socialização.

À época, essa categoria sequer era abrangida pela Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT; Dona Laudelina presenciou, já idosa, em 1988, a Constituição da República estender às trabalhadoras domésticas os direitos assegurados aos demais profissionais, bem como o direito à sindicalização.

Em 1985, Elisabete Aparecida Pinto conheceu Dona Laudelina, quando era estagiária no Serviço de Atendimento e Encaminhamento de Casos – Saec. Ao perceber a sua importância histórica, posteriormente, entrevistou-a em sua pesquisa de mestrado Etnicidade, Gênero e Educação: trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello (1904-1991).

Outro ponto importante é que se optou por manter os depoimentos das trabalhadoras tais quais por elas escritos, a fim de preservar a sua integralidade e intencionalidade. É um ato de retomada de uma palavra que foi, historicamente, confiscada às trabalhadoras domésticas, as quais são, em sua maioria, negras.

Invisibilizadas nos elevadores de serviço, cozinhas, quartos de empregada, isto é, apartadas dos espaços de convivência coletivos, em muitos casos não são sequer chamadas pelo nome, mas por “tia da limpeza”, “moça da limpeza” (independentemente de ser uma senhora), entre outros.

Aqui, encontramos a escrita e vivência das trabalhadoras domésticas, escrevivência, termo cunhado por Conceição Evaristo. Vozes-mulheres que remontam às ancestrais africanas que foram submetidas à escravização, às suas descendentes que vivenciaram as agruras decorrentes de uma abolição sem reparação histórica, as quais contavam suas histórias pela noite, em voz baixa, depois de um dia de trabalho extenuante.

Essas mulheres encontram suas próprias vozes, nomeiam as suas experiências e fazem-se na palavra. Uma frase, dita por uma das depoentes, sintetiza o anseio: “No desejo que nossa voz ecoe, que os privilégios sejam rompidos e histórias como essas nunca mais sejam contadas.”

Fonte: valkirias.com.br
 
     
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